O envelhecimento na nova época geológica do Antropoceno *
As grandes transformações da nova era trouxeram incomensuráveis danos ecosistémicos para a humanidade, refletindo-se os mesmos mais profundamente nas pessoas de idade avançada. Esta realidade permitiu que se refletisse sobre o envelhecimento e inovasse criativamente, edificando uma nova abordagem qualitativa, tendo como base o fenómeno da Dança, que não só transforma esta noção, como vem explorar as potencialidades do espaço vivido numa diferente corporalidade, que questiona as dimensões do envelhecer. Integrando esta forma de expressão artística na própria dinâmica de compreender esta dimensão, o indivíduo sénior apreende uma nova maneira de se movimentar espacialmente, o que lhe permite verificar as suas possibilidades de resistência, como um novo modo de exercer o seu poder corporal e como forma inovadora de se recriar em arte. A Dança permite que o ser humano se reinvente corporalmente, que ganhe novas dimensões de resistência para uma melhor compreensão da dinâmica e da ação sobre a sua realidade pessoal, que desenvolva novas técnicas através de outros processos pessoais de adaptação, que explore a experiência vivida ao longo do tempo, bem como as interações culturais vivenciadas, o que mostra na contemporaneidade a sua travessia, como a nova etapa do seu “biopoder” (Foucault). Uma travessia da sua vivência, que ganha diferenciadas amplitudes e se recria na linguagem humana da Dança, ao estabelecer e fortalecer interações sociais, entre o passado e o presente, em que o ser humano reescreve o novo capítulo do seu existir, do “corpo performático”, no reencontro do tempo da escuta e da sabedoria adquirida, que aparece como uma nova ontologia de compreensão de outra forma do envelhecer estar no mundo.
Romy Castro
19.04.2026
* Reflexão a partir de um trabalho conjunto, que vem sendo a ser desenvolvido por Teresa Norton Dias e Romy Castro.